CRÓNICA: A manhá do dia em que perderia todas as fotografias nevaria…

Et cet enfant

A toute la maison pour lui, désormais. Il va

D´une fenétre à  l´autre. Il presse

Ses doigts contre la vitre. Il voit

Des gouttes se former là ou Il cesse

D´em pousser la buée vers Le ciel qui tombre

E este meninho, desde agora,

Tem a casa toda para el. E vai e vem dumha janela à outra. Pressionando

contra o vidro os dedos. E vê como se vam formando pingos onde acaba de soltar o bafo para o céu que cai

Yves Bonnefoy,  Início e fim da neve

 

A manhá do dia em que perderia todas as fotografias da Semente nevaria e Celso  sabia-o. Eu estava prestes a entrar na escola e ouvim-no berrar da outra beira da estrada “Vero, hoje vai nevar!”. E sorrim a pensar na magia da neve, nas esperanças da infáncia e começamos como cada dia a rotina nas aulas.

Na tarde do dia em que perderia todas as fotografias da Semente nevaria. Eu soubem polo frio que me percorreu o corpo quando o computador deixou de ler o cartom onde guardava tantos acontecimentos, tantos tesouros feitos imagens. Pedim outro vinho para entrar em calor e pensei nas palavras, nas imagens, em que nom sempre unha imagem vale mas que mil palavras.

Tenho por costume recolher frases na memória, outras singelamente passam ao esquecimento, algumhas ficam num lugar agochadas onde hoje procuro.

Tenho a intençom pois de entregar-vos uma crónica sem imagens mas cheia de palavras.

Há momentos que só se podem viver, que som difíceis de capturar numha imagem e complexos de explicar com palavras. Um deles foi a cara de Fuco ao ver nevar.

Quando Bea chegou com a nova de que nevava abrim as janelas todo o que davam e as crianças subírom para espreitar, Fuco estava sem sapatos e nom havia muito lugar livre mas si muita expectaçom. Pugem-no oo colo e juntos saímos à porta do quintal, que linda com a casa e horta da Concha e do Ramiro, que linda com um edifício que tem o lateral pintado dumha cor grená. Olhamos para essa parede e vimos a neve cair, sobre esse fundo vinho. Fuco olhou para mim e eu para el, abriu a boca e…UOU… A sua cara falava e eu calava polo nó de emoçom na garganta. Cousas como estas som as que vivemos na Semente, na nossa escola. Muito mais os dias de neve.

Lembro também a expressom empática na cara do Xes, com um tom de pena na voz, quando eu explicava numa  assembleia a odisseia que passara para chegar à escola: com a trovoada nom puidera apanhar o balom para vir, com o aviom tinha problemas para parar em casa de Lea para a recolher, o helicóptero tinha o mesmo problema, o autocarro perdera-o, o patim nom tinha roda e a da bicicleta mordera-a um cam; lembrei-me do barco e Xes continuou a minha história dizendo “mas… mas em Santiago nom há mar”, dixo-o com tanta mágoa… O que estávamos fazendo era aprender mais meios de transporte em língua gestual, também a narrar histórias, a divertir-nos e sonhar com o impossível possível. Aquela singela frase “mas… mas em Compostela nom há mar” deu-nos para ver mapas, para ver o jeito de chegar à Semente com um barco, do mar ao rio, do Sarela à Semente. Tivemos que pensar quê precisaríamos, quê meteríamos numha mala para viajar: comida, livros, brinquedos, água, roupa, caracóis… houvo pra todos os gostos. Começamos a conhecer mais o meio e começou um novo projeto de saídas da Semente: visita à Torreira de autocarro, saída ao parque de Vista Alegre para degustar as bolachas que fijo a Sainza, incursom polas beiras do Sarela, parvas nos descansinhos do rio, manifa na praça no 8 de março…

Queria lembrar pequenos detalhes, palavras, que foram quem de recolher o que fazemos, vivemos e somos na Semente.

A 8 de março figemos o parom que estava programado, argalhamos com jornais velhos algo vistoso e saímos à rua. Ali regueifamos , sentamos em círculo e começamos a dizer em voz alta o nome das mulheres da nossa vida: Bea, Marta, Joana, “Mamá”, Rosalía… Siro lembrou o nome de Mati, a mae, e quando acabou a roda de nomes falou novamente: ouves, mas é que hai mais, eu sei de muitas mulheres importantes, estám aqui e lá longe. Há muitas. A gente saía polas janelas saudava e sorria e sabiam tam bem como nós que há futuro, que há semente de vencer.

Na visita à Torreira de autocarro o Andeca estava emocionado, levava tanto tempo desejando ir…  Quando chegamos a apanhar o autocarro decatamo-nos de que nom tínhamos dinheiro, Fuco negou-se com cara de pena (nom sem antes pensá-lo muito) a pagar o bilhete de todas com um teusouro em forma de rebuçado de ananás que levava no peto, menos que mal que a Júlia que andava muito atenta às pedras do chao encontrou umha moeda de 10 cêntimos! Era o nosso dia de sorte! O motorista nom quijo cobrar e deu-nos um passeio melhor que o das atraçons de feira. Quantos risos e caras de felicidade. Era o nosso dia de muita sorte! Passar a jornada com as companheiras da Torreira foi estupendo, e as educadoras pudemos conviver e juntar-nos, cousa que adoramos.

No passeio polas beiras do Sarela ouvimos o rio. Ouvir água a correr, forte, suave… vimos pegadas na lama que depois recriaríamos, investigamos uma árvore caída, vimos restos de ouriços das castanhas e petiscamos no campo, molhamo-nos até os joelhos e brincamos entre ramalhos que chegavam ao chao. Carla acompanhou-nos e ensinamos-lhe a fazer caca de campo e recolhê-la…e é que quando a vontade vem de repente… Despois de tantas emoçons a volta para a Semente complicou-se-nos um bocadinho mas estamos no caminho.

No parque comemos bolachas e lambemos as miguinhas da caixa, deitadas no banco, no pano eu na erva. Lembro o Celso tranqüilo, no meio do campo, a olhar para a última bolacha enquanto a tinha nas maos. El e o seu estar contemplativo. O nosso contemplar.

Trabalhamos muito as saídas nas redondezas e vivemos muitas experiências, vimos fotografias dos percursos, figemos os nossos próprios e ampliamos as salas, salas sem paredes que diria a companheira Rosalia Rial.

Ai, lembrando agora a Rosalia… contou-me o outro dia Estela, a mae da Lea, que quando lhe dixo que Rosalía ia ter um irmao Lea olhou para ela com gesto estranho, abriu os braços com as palmas das maos para  céu , encolheu os ombros e perguntou sem entender nada: “Osalia de Cato”? Hahaha, nom lhe quadravam as contas…

Queria hoje recolher os gestos em palavras e as palavras em emoçons.

Queria deixar-vos ver como Eire coloca o cabelo das amigas e amigos por trás da orelha com o amor com que seguramente lho fam a ela, a olhar atentamente a cara para sentir a outra. Ou como Lía chuchava na salada de mar e terra que preparamos com algas que hidratamos e leituga que cultivamos, como partilhava no meio da horta com as amigas, como Carme picou alho para saltear todo e como ela, Lea e Iria metêrom-no na boca cru, por aquilo de que para saber há que provar… faltou-lhes tempo para ir por copos de água! Xes estava encantado de cortar com faca de crescidas.

Queria que montássedes a cavalo como as generalas da Ulha e improvisássedes um cinema para verdes os vídeos que trouxo Marga, que ela sabe muito disso. Que pugéssedes os trajes como Iria ou Duarte que atendia com os olhos de par em par sem perder imagem de cavalo ou palavra dita, que é o que mais adora na escola.

Quería que escoitássedes o Xío a contar histórias mágicas na assembleia, o Simón bailar e cantar Estrelinha ou todas cantar “Eu quero morar numha casinha feita à mao, com umha floresta onde eu poda plantar o que eu quiger, andar de pé no chao”. Ver o Xes arrolar a Lía ou as mais pequenas de foliada. O Fuco como público e Duarte com a guitarra elétrica dando um espetáculo. Os instrumentos de reciclagem que fijo a companheira Carla, que este mês acabou a estadia na Escola. Abraço grande e todas as alegrias para ti, Carla. Obrigadas.

Eu queria mostrar-vos todo isso e dim que uma imagem vale mais que mil palavras e eu já levo 1.417 agora mesmo, e nom tenho imgem que mostrar porque tal e como começava esta crónica: A manhá do dia em que perderia todas as fotografias da Semente nevaria…

Eu queria começar assim para dizer-vos que perdera todas as fotografias mas para vos lembrar que a neve há que vê-la, senti-la, tocá-la e contá-la. Isso, isso é mais que qualquer imagem.

Acabo novamente com Yves Bonnefoy:

Tu vas, le coeur battant, dans la grande neige.

Bate-che o coraçom. Sais. Que grande nevarada.